Após quase 60 anos juntos, casal comemora Dia dos Namorados em asilo

Após quase 60 anos juntos, casal comemora Dia dos Namorados em asilo

Era um dia de fevereiro de 1954. O jovem Hugo Nunes Pio, na época com 23 anos, avistou Zuneyda Moreira Pio, 24. Com seu vestido rosa, ela parecia desfilar pelas ruas do bairro carioca, Ramos. Ele chegou mais perto e perguntou se poderia acompanhá-la. Acostumado a conquistar as mulheres da redondeza, recebeu uma resposta inesperada. “Pode, mas já está aqui mesmo”. Ela perguntou seu nome, e ele mentiu. Mal sabia que ela já o conhecia. Sua amiga era apaixonada por Hugo. A amiga a arrastava até a estação para ficar observando Hugo. Porém, a própria Zuneyda não queria nada com ele pela sua fama boêmia. “Eu dizia, ‘ele não deve prestar’”. Mas não teve jeito, os dois se apaixonaram. Após mais de 65 anos desde esse dia, não se largaram mais. Hugo levava uma vida boêmia: gostava de frequentar as praias do Rio de Janeiro, pescar, andar de barco até a Ilha do Paquetá. Zuneyda gostava de costurar, cozinhar e bordar. Tinha um irmão protetor, que a avisou sobre ele. Ficaram juntos por cerca de 6 anos até a data do casamento, em maio de 1960. Ela confeccionou seu vestido de noiva sozinha. Por muitos anos, em todo aniversário de casamento, ele lhe dava um presente. Podia ser simples, como um pano de prato ou linha de costura. O importante era não esquecer e celebrar a união. Desse amor, nasceram seus dois filhos: Rosane Moreira Pio Bruno, 58 anos, e Bruno Moreira Pio, 54. O casal levou cinco anos para construir e mobiliar por completo a casa. Na época, Hugo era tesoureiro auxiliar da extinta Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima. Seu sonho, quando jovem, era cursar medicina. Tentou por dois anos, sem sucesso. Depois de nove anos de casado, passou em 1° lugar no vestibular de Direito da Universidade Gama Filho em 1969. Com a bolsa de estudo, ele poderia dar melhores condições para a família. Porém, perdeu a bolsa ainda durante o curso. Luís da Gama Filho, dono da universidade, perdeu a candidatura de senador da Guanabara. Então, cortou toda a verba dos bolsistas. Foram tempos de dificuldade financeira. Segundo eles, uma das épocas mais difíceis que enfrentaram. Zuneyda fazia bolos e bordados. Hugo vendia rifas. Tiveram que fazer um empréstimo no banco para pagar a mensalidade. Mas não deixavam de dar passeios com os filhos. As crianças já sabiam de cor: nada de pedir para comprar algo. Com muito esforço, ele conseguiu se graduar. A vida melhorou quando subiu de cargo na empresa- foi nomeado tesoureiro geral. Enquanto isso, Zuneyda se dedicava aos filhos e a casa. .

Mudança
Rosane morava na Praia Grande, e Bruno, em Bertioga. Ambos se preocupavam com os pais sozinhos no Rio de Janeiro. Foi então que mudaram-se para Santos, onde ficaram por seis anos. Um dos apartamentos próximos ao de Rosane, na Praia Grande, ficou vago. O casal mudou-se para ficar mais perto da filha. Porém, surgiram dificuldades financeiras e o genro teve que vender o apartamento e mudar-se para São Sebastião (SP). Hugo desenvolveu um problema de visão. Sem conseguir dirigir, viu-se obrigado a vender o carro. Zuneyda teve um acidente vascular cerebral (AVC). Hoje conta com a ajuda de um andador e cadeira de rodas para se locomover. Sem outras opções, os dois vieram para o Residencial Casa do Sol em maio de 2018. Apesar dos empecilhos da idade, divertem-se juntos. Para Hugo, domingo é tradicionalmente o dia de levar a esposa para almoçar fora. Quando há visitantes, ele gosta de contar piadas e fazer truque de mágica. Aprendeu para distrair os sobrinhos pequenos durante os dias chuvosos de férias. Zuneyda é sua assistente. O segredo dos truques eles não contam! Quando perguntados sobre o que mais sentem falta eles dizem que é da pescaria – Zuneyda é hexacampeã de pesca feminina amadora –, dos amigos, de cozinhar, entre outras coisas. Mas a maior saudade é dos filhos e netos, Matheus, Victoria e Pietro. Hoje, Rosane é professora em São Sebastião. Bruno é biólogo. Com bodas de diamante previstas para o ano que vem, Hugo brinca que o casamento é “um carma”, e Zuneyda completa: “é castigo”. Nas palavras dela, “eu não sinto tanta saudade porque tenho ele comigo aqui”.